quinta-feira, 4 de maio de 2017

A INVENÇÃO DO TEMPO - II

 Deus pairava sobre o espaço esplendoroso habitado por Adão e Eva. Quando os humanos sentiram sua presença, logo se aproximaram. Tinham sede de saber mais alguma coisa sobre seu Criador e as maravilhas da criação colocadas a sua disposição.

 Eva, com sua curiosidade natural da espécie, foi a primeira a abordar o Senhor do Universo. Após uma curvatura respeitosa ela inquiriu:

 "Senhor, vem nos comunicar alguma novidade?"

 "Novidade, Eva? Como assim?", respondeu o Criador. E sumiu novamente.

MINICONTO N. 7

DECISÃO

 Aquele casal de gênios havia conseguido envenenar toda a humanidade. Disseminaram pelo mundo sementes geneticamente modificadas e agora a Terra estava estéril e deserta. Restavam só os dois para gerar um novo mundo, agora perfeito, como eles próprios haviam idealizado.

 Para isso haviam trabalhado incansavelmente. Até que um dia constataram que o estoque de alimentos seria suficiente somente para um deles sobreviver por algum tempo. Para o bem da ciência, e pelo surgimento de uma nova espécie humana, teriam que tomar uma decisão fatal para um dos dois...

domingo, 9 de abril de 2017

A INVENÇÃO DO TEMPO - I

 Assim que acabou de tornear aqueles dois entes - que depois chamou de homem e mulher - Deus lhes mostrou o que acabara de criar para que eles se deliciassem. Com tudo aquilo eles poderiam curtir a vida que iniciavam no mundo magnífico do paraíso. Aquelas criaturas, ao sentirem por todos os lados a maravilha da criação, não cabiam em si de contentes, mal podendo acreditar que houvesse tanta coisa criada simplesmente para alegrar a sua existência. Não conseguiam demonstrar toda sua felicidade. Era tudo deles e para sua satisfação.

 Aí Deus escutou suas manifestações com toda paciência e, depois de responder-lhes algumas perguntas, parou de falar-lhes e piscou seu grande olho onisciente para o restante do Universo e arrematou com um leve sinal de riso no semblante: "Mas agora vou criar o TEMPO". E desapareceu, deixando suas duas mais importantes obras em expectativa com aquela sensação de que não conseguiriam entender tudo...ou quase nada!

terça-feira, 21 de março de 2017

JANJÃO TAMBÉM PODE SER PRESO

 Estava eu, em um sábado pela manhã - depois de um daqueles "prende-e-solta" promovido por um conhecido juiz federal - caminhando pela Rua da Praia, assim como quem não quer nada, só para matar o tempo, quando me deparo com o Janjão. Logo o interpelei quando cheguei mais perto dele para saber de alguma novidade, que nessas coisas ele é especial.

 "E aí, Janjão, velho, como andam as coisas?"

 "Mal". Respondeu logo em seguida. "Infelizmente mal. Perigosas."

 "Como assim, perigosas?" Manifestei minha estranheza.

 "Pois não ouviste dizer que, agora, os próximos a serem presos vão ser os que têm nomes terminados em "ão"?"

 "Mas, homem, isso não pode ser critério para prender alguém!"

 "Poder, não pode, mas, na dúvida, vou tratar de ir sumindo por um tempo. Já estou sabendo que prender ou não-prender não depende muito de critério pelo que se tem visto. O critério agora é não ter critério."

 "Não sei o que dizer, Janjão. Mas, aonde vais com tanta pressa?"

 "Vou na casa do meu amigo Hamilto para avisar dessa nova para que ele também se cuide."

 "Espera um pouco! Agora não entendi! O que tem a ver Hamilto com um nome terminado em "ão"?"

 "Cara estás esquecendo que o apelido dele é "alemão"? Não sei se eles não vão considerar o apelido também. Aliás, isso está muito em voga, não é?"

 E continuou, apressando o passo a subir a rua em direção à Independência.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

APROVEITE AS FÉRIAS

Miniconto n. 4
Gostosura
- "Ah, como está gostoso".
- "Mais depressa, a mãe pode voltar. Acaba logo".
- "Tá bem, mas, amanhã, quero outra vez".
- "Impossível!".
- "Por que? É tão bom".
- "Não dá. Vai ser a sobremesa da noite. Não vai sobrar nada".

Microconto n. 7
Saudade
 Jogado num depósito de Delegacia, um velho cassetete de borracha "made in Brazil" se queixa a outro: "Ai, que saudade de 64".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A FLORISTA


 “Boa tarde, senhora”.

 “...tarde, doutor. O que vai hoje?”

 “Hoje, rosas vermelhas. As mais lindas que a senhora tiver”.

 Era o ritual de todas as sextas-feiras, em final de tarde. Já haviam sido muitas delas. Com bom tempo; ou sem bom tempo; com sol radioso ou com chuva persistente. Sempre o mesmo local, a mesma pessoa, a mesma florista, a mesma hora. As flores é que poderiam variar conforme as que houvessem sido escolhidas na semana anterior. Não havia repetição em duas semanas seguidas.

 A variedade das cores e tons e o viço dos vegetais daquele pequeno recanto próximo a uma avenida movimentada, transformavam o asfalto em um belo jardim que atraia olhares dos passantes de final do dia. A semana estava terminava. Há os apressados que não se detém e os apressados que esquecem, por momentos, seu estresse para admirar o que enche os olhos de beleza e um pouco de paz que só o que é natural consegue.

 Ele mantinha o olhar fixo no que ela fazia. Nos menores detalhes: nos costumeiros e nos novos, se houvessem. As vezes, punha as mãos nos bolsos como se sentisse inseguro.

 Nesta sexta, volta a repetir-se o mesmo que em todas elas:

 “Boa tarde, senhora”.

 “...tarde, doutor. O que vai, hoje?”

 “Deixo para a senhora escolher. Hoje são do seu gosto”.

 Pagou, guardando a carteira no bolso do casaco e falou:

 Quando ela vai alcançar-lhe as flores, ele fala: “Esta é para entregar”

 “E o endereço qual é”, perguntou a florista.


 Ele responde: “Na verdade não sei. São para você”. E afastou-se sem dizer mais nada, pensado como seria na sexta-feira seguinte.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O JULGAMENTO DE JANJÃO - II

 "Quais são as chances de eu ser absolvido?", perguntou Janjão, manifestando preocupação com seu destino.

 "Vai depender da gravidade de tuas faltas e dos atos de bondade que praticaste em tua vida terrena. Também dependes da disposição de alguns santos que compõem a Corte. Ela vai designar um defensor, entre eles, para servir de teu advogado. A Corte tem um presidente designado a cada dez séculos. Estás com sorte porque o atual presidente é São Francisco, que é reconhecido por ser muito complacente com os pecadores e ele tem poder de voto de minerva no caso de haver empate. Além do que, um presidente sempre tem maiores poderes do que os outros membros e influi muito nas decisões".

 "E se for condenado, posso recorrer?. A quem?".

 "Poder, pode. Deus é a última instância. Mas até hoje não houve nenhum caso em que a nossa Alta Corte fosse contrariada. Todas suas decisões têm sido homologadas pelo Criador".

 "Quanto tempo vou esperar para ter uma resposta?".

 "Tempo? Isso não existe aqui. Aliás é parecido com o que acontece lá no teu País. Não há prazo para as decisões. Aqui o tempo não conta tempo".

 Janjão não queria perder a oportunidade, mas achava que já estava incomodando São Pedro com suas questões. "Quais são os atos mais graves que podem dar em condenação?", perguntou, pensando, agora, em algumas faltas que havia praticado em vida. "Existem atenuantes?".

 A nossa Corte formou jurisprudência em julgar as intenções. Tudo depende da intenção com que uma boa ou má ação seja praticada. Assim, se alguém pratica uma ação com intenção de fazer o bem ela é contada como positiva, mesmo que o resultado não seja alguma coisa boa".

 "Não posso alegar em meu favor o que as pessoas diziam de mim?"

 "Nem a favor, nem contra. Aqui não vale a teoria do domínio do fato. As mentiras e as verdades são conhecidas igualmente. O que vale aqui é o domínio da intenção. Apesar de que...".

 "Eu errei muitas vezes, mas sempre com boas intenções. Isso vai valer, então?".

 São Pedro pensou um pouco, acariciando a longa barba com a mão esquerda e respondeu: "Na verdade, o que está acontecendo é que os processos estão trancados porque em um julgamento de um ex-membro do STF brasileiro, que morreu há algum tempo, ele propôs uma nova interpretação para o caso de que uma intenção má tenha produzido um resultado bom. Ele defende que isso seja igualmente positivo. Nunca havia acontecido uma contestação aqui e a Corte ainda não conseguiu deliberar sobre a questão. Assim, está tudo parado até que se consiga resolver o embrulho".

 "São Pedro, eu..."

 São Pedro fez-lhe um sinal de que a entrevista havia acabado, dizendo-lhe "Na fila atrás de  ti há dez mil almas querendo respostas para suas dúvidas. Volta depois para conversarmos com mais calma. O seguinte, por favor", falou, encerrando o assunto com Janjão.

 Janjão se afastou pensativo e procurou alguém com quem conversar quem sabe pelos dez séculos seguintes.

(Porto Alegre, dezembro/2016)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O JULGAMENTO DE JANJÃO - I

  Janjão havia morrido. Sempre vivera acertado com a vida e praticava o bem segundo os mandamentos do Senhor, transmitidos pelas igrejas que haviam se encarregado dessa tarefa. Esperava, portanto, ser recompensado na vida eterna, indo para o proclamado céu onde esperava desfrutar das delícias reservadas aos homens de bem.

 Sua alma foi transportada para um local de rara beleza lotado de outras almas, iguais a dele, que transitavam por ali em animado colóquio.

 Ele ficou, ao mesmo tempo, perplexo e curioso. Onde estaria? Aquilo seria o céu ou o inferno? Para ser o primeiro estava muito chocho. Não era o que lhe haviam descrito os entendidos em religião. Para ser o segundo, estava muita moleza. Então? Ele observou que aqueles espectros não ocupavam lugar. Muitas vezes alguém passou através dele para dirigir-se a um lugar. Ele pensou lugar, mas ficou em dúvida pois ali o que não havia era lugar no conceito terráqueo.

 Resolveu, então, interpelar algum de seus companheiros. "Onde posso falar com o responsável por este lugar?", perguntou a uma alma de porte pequeno que passava por ali. "Você procura por São Pedro?", devolveu a pergunta. "Bom, se ele é o responsável, sim". "Vire a sua esquerda e encontrará uma fila de pessoas com as mesmas intenções", respondeu-lhe e continuou a sua caminhada.

 Realmente, no local indicado havia uma longa fila. Digamos de umas 10.000 almas, olhando assim por cima. "Quando vou ser atendido com uma fila maior do que a do SUS lá na Terra?", pensou. Resolveu entrar nela e perguntou para a alma que estava na sua frente: "Quanto tempo acha que demora para chegar a nossa vez?". O perguntado olhou para ele e respondeu com ar de galhofa: "Tempo? Como assim? Isso não existe aqui", e voltou a sua conversa com a alma a sua frente.

 De fato. Assim como chegou ali, foi a sua vez de ser atendido. A pessoa - era pessoa? - que se encontrava ali representada pelo que lhe pareceu um senhor sério de longas barbas com um olhar bondoso, parecido com o que era retratado com uma chave na mão em algumas casas lá na Terra. Imaginou que seria São Pedro, mas não sabia como dirigir-se a ele. Tentou o jeito respeitoso com que se tratam os políticos ainda hoje lá embaixo. "Vossa Excelência poderia me responder onde me encontro?" O Santo o olhou com o perfil de quem pensa: Esta já é a quaquilhonésima vez que respondo esta pergunta hoje. Mais uma não vai fazer diferença.

 Respondeu, então, com uma expressão paternal: "Filho, tu estás na Suprema Corte da Eternidade. Pela tua vida reta e pelas poucas falhas que cometeste na Terra tiveste direito a um julgamento..." Ele se apressou a dizer: "Posso ser absolvido ou condenado, então? Por quem vou ser julgado?". São Pedro respondeu: "Podes ser absolvido ou condenado. Vais ser julgado por uma Corte designada por Deus a cada dez séculos, composta de treze santos que julga os humanos que cometem faltas na Terra passíveis de serem perdoadas pelo Criador".   (continua)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

À MODA ANTIGA

 Retornando às atividades, depois de um intervalo ocioso e para começar bem o mês de novembro, vai um soneto à moda antiga, daqueles que os namorados colocavam no "álbum das amadas" para serem lembrados "para sempre".

A VOLTA

Corri abrir a porta. Ela voltou.
Entrou em nossa sala de repente
e, sem mesmo dizer por onde andou,
olhou tudo de maneira diferente.

Trouxe um vestido branco e feio,
e a mesma mala antiga, com defeito.
Até um livro chato que nem leio
e o sorriso aquele do seu jeito.

Tendo tudo ao seu normal voltado,
cada coisa em seu lugar e eu sigo
não querendo saber do seu passado

Ela volta assim para seu meio
trazendo a alegria que levou consigo
mas sinto que sua alma`inda não veio.

Wenceslau Gonçalves
agosto/2016

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

IMPEDIMENTO: A VINGANÇA DA ELITE



 Deixei passar um pouco de tempo do final patético protagonizado pela assembléia dos anciãos da pátria que culminaram com uma “apropriação indébita” de um mandato popular sem qualquer razão plausível para que isso acontecesse, para reordenar minha mente e atinar com a verdadeira motivação para que isso acabasse ocorrendo.

 Cheguei a uma conclusão. A motivação não foi política muito menos jurídica. O que levou a maioria das excelências e cassarem o mandato da Presidenta foi VINGANÇA.Simples assim: vingança da elite que comanda as ações sociais, políticas e econômicas que vicejam no País, desde seu descobrimento. Naturalmente que deve  reconhecer-se que houve uma evolução na metodologia utilizada, mas a ambição é a mesma: dominar e fazer com que não haja nem uma pequena mudança em favor de quem não faça parte de seu clã. Os mais abastados devem continuar usufruindo de todas as riquezas desta maravilhosa terra (abençoada por Deus, dizem alguns) e o proletariado (ou o quer que o represente) deve continuar pagando a conta...e calado pelo que se vê de repressão nas ruas. O Congresso – os que recomendaram (a Câmara) e os que cassaram (o Senado) foi, apenas, mero instrumento para que essa elite repressora e retrógrada atingisse, mais uma vez, seu objetivo. Digo retrógrada porque não consegue visualizar que – se não abrir mão de nada - mais cedo ou mais tarde, vai sofrer uma derrota pela ambição desmedida que a faz acumuladora de bens cada vez mais em benefício de uns poucos privilegiados.

 Esse desejo de vingança não é de agora. Ela se revela contra os primeiros benefícios estipulados pelas leis trabalhistas, há décadas, proporcionadas por um governo popular e continua, reforçado, depois, pela eleição de um torneiro mecânico quase analfabeto para presidente. É vingança, sim, contra o fato de que 30 milhões saíram da pobreza absoluta e outros milhares puderam atingir uma universidade. Vingança contra um governo que obteve respeitabilidade a nível internacional e conseguiu pagar sua dívida externa. Depois de tudo, ainda o “populacho” comete a ousadia de eleger uma ex-guerrilheira que combateu o regime que eles apoiavam. Isso é muita afronta e não pode ser admitido que continue grassando esse nivelamento social que pode acabar eliminando a diferença que deve ser mantida entre classes socialmente desniveladas pela mãe-natureza.

 Então, quando eles votavam “sim”, estavam dizendo “não” a um mandato que, se não foi brilhante, ao menos continuou seu lento trabalho de distribuição de oportunidades para um maior número de brasileiros. Como já disseram “não” à tributação das grandes fortunas; à CPMF que não deixa ninguém fora e estabelece um controle de movimento de capitais que hoje escapam ao fisco. Disseram “não” ao financiamento do estudante de baixa renda; disseram “não” ao bolsa-família e ao Pro-Uni.  Disseram “sim” à privatização das estatais e à entrega da Petrobrás ao capital estrangeiro.

  O Congresso, neste momento, personificou tudo o que existe de entreguista e atrasado em nosso País em matéria política. Representou, brilhantemente, a elite que reina no País com plenos poderes, graças a uma mídia que solapa a informação e trama junto com essa elite sua permanência na direção de uma administração que acaba igualando nosso País a uma republiqueta qualquer onde os poderosos decidem tudo a seu bel-prazer sem qualquer preocupação com o restante da sociedade.

 Por isso, acredito que, acima de qualquer outra motivação, a causa principal deste falso Impedimento, foi o desejo de vingança da nossa elite contra o pouco que poderíamos estar alcançando em matéria de avanço social.